Feminismo

Bertha Lutz e os 94 anos do voto feminino no Brasil

Há 94 anos, o Brasil dava um importantíssimo passo em direção à democracia e à emancipação das mulheres. Em 24 de fevereiro de 1932, o Código Eleitoral autorizava as mulheres a votar e a serem votadas. E, apesar das restrições iniciais com critérios de estados civil e renda, foi um marco decisivo: a política deixava de ser exclusivamente masculina. Em 1965, o Código Eleitoral foi editado e a política entre os sexos foi oficializada com o alistamento eleitoral obrigatório às mulheres. 

A conquista foi resultado de quatro décadas de uma luta intensa do movimento feminista, desde a década de 1880, com o movimento sufragista, que se intensificou no final dos anos 1920. E, por trás dessa conquista, um nome atravessava essa história: Bertha Lutz. 

Filha do cientista Adolfo Lutz, formada em biologia na França, Bertha poderia ter seguido apenas a carreira acadêmica. Não seguiu. Ao voltar ao Brasil, no início do século XX, encontrou um país em que mulheres eram excluídas das decisões públicas e limitadas ao espaço doméstico por norma social e jurídica. 

Líder na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras, a ativista empenhou-se pelo direito ao voto feminino. Criou em 1919 a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que foi o embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Bertha também fundou a União Universitária Feminina, a Liga Eleitoral Independente, em 1932, e, no ano seguinte, a União Profissional Feminina e a União das Funcionárias Públicas. 

Bertha Lutz não parou ali. Em 1934, tornou-se suplente de deputada federal e assumiu o mandato em 1936, foi a segunda mulher a entrar no serviço público brasileiro. No Congresso, defendeu igualdade salarial e proteção ao trabalho feminino. Sua atuação também alcançou o cenário internacional: participou da Conferência de São Francisco, em 1945, contribuindo para que o princípio da igualdade de gênero fosse incluído na Carta das Nações Unidas.

Quase um século depois, e em ano eleitoral, a pergunta que atravessa a data é inevitável: o que significa votar hoje?

O voto é um gesto individual, silencioso e rápido. Mas ele carrega uma história de disputas. Significa escolher representantes, influenciar políticas públicas, interferir nos rumos econômicos e sociais do país. Significa, também, reconhecer-se parte do jogo democrático. No entanto, a representação não se resume ao direito de apertar um botão na urna. Quantas mulheres ocupam, de fato, os espaços de poder?

Apesar de as mulheres serem maioria do eleitorado brasileiro, sua presença em cargos eletivos ainda é minoritária. Na Câmara dos Deputados e no Senado, a participação feminina permanece distante da paridade. O Brasil avança de forma gradual, mas ainda ocupa posições modestas em rankings internacionais de representatividade parlamentar feminina. Nas prefeituras e governos estaduais, o cenário é semelhante: crescimento lento, desigual e atravessado por barreiras estruturais. Desde 1932, houve conquistas inegáveis, entretanto, o acesso ao poder continua marcado por disparidades econômicas, culturais e partidárias.

Votar hoje é exercer um direito conquistado por mulheres que resistiram. Cada voto feminino carrega a memória de uma luta. Celebrar essa conquista não é apenas olhar para trás com reverência, mas assumir, no presente, a responsabilidade de ampliar espaços, fortalecer a representação e garantir que a democracia brasileira seja, de fato, plural. Porque direitos conquistados exigem vigilância constante e participação ativa.

Você também pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *