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It Girls & The Cool Girls Book Club | Naema, a bruxa de J.W. Rochester

Latte & Read #41 | Julho 2026

Naema, a Bruxa, de Rochester, é um livro que mistura romance, fantasia, religião e perseguição, construindo uma história envolvente e de leitura bastante fluida. É um livro de que eu gostei muito como um todo, mas que também me fez questionar bastante algumas das ideias que apresenta,  especialmente a maneira como coloca deus e o Mestre Leonardo em lados tão claramente opostos.

Antes de mais nada, essa é uma releitura muito pessoal. A partir daqui teremos muitos spoilers e acho importante dizer também que eu não sou cristã, porque isso certamente influencia a maneira como interpreto algumas questões da história. E existe uma diferença importante entre o que o livro parece querer dizer e o que eu, particularmente, enxerguei nele.

Rochester deixa bastante claro que, dentro da história, o bem deve prevalecer sobre o mal. Deus representa o bem, enquanto o Mestre Leonardo é apresentado como uma figura perversa e diabólica. O livro não parece interessado em questionar essa divisão. O problema é que, para mim, quando observo as atitudes dos personagens em vez dos papéis que a narrativa atribui a eles, essa distinção começa a ficar bem menos convincente.

O Mestre Leonardo é tratado durante todo o livro como uma personificação do mal, mas eu sinceramente não consigo enxergá-lo dessa maneira. Ele ajuda Eleanor a escapar da fogueira, permite que ela se encontre todas as noites com seu amado, oferece a ela tudo do bom e do melhor e também ajuda Walter a fugir da morte. Em troca, pede que essas pessoas abandonem Deus.

E, sinceramente, eu achei bem válido. Afinal, deus é quem abandonou essas pessoas. O Mestre Leonardo, por outro lado, aparece justamente para ajudá-las. E ainda temos os sabás, que são apresentados dentro dessa lógica como parte do universo demoníaco, mas nos quais encontramos comida boa, bebidas, danças e diversão. Não vejo exatamente a desvantagem.

É claro que essa não parece ser exatamente a interpretação que o livro pretende provocar. A narrativa deixa bem claro que essas escolhas são erradas e que o Mestre Leonardo é maligno. Mas essa é justamente a parte em que minha leitura se distancia da proposta do livro. 

E então chegamos ao final, quando deus finalmente aparece e destrói tudo porque algumas pessoas escolheram não segui-lo. Dentro da moral cristã que o livro apresenta, isso faz sentido: quem rejeita deus está do lado do mal e, portanto, precisa ser punido. Mas, olhando de fora dessa perspectiva, eu não consigo deixar de pensar: quanto narcisismo, hein?

Essa é uma crítica à minha interpretação da história, e não exatamente um erro do livro. Rochester está reproduzindo uma visão de mundo na qual deus é o bem absoluto e aqueles que se afastam dele são considerados maus. Infelizmente, nossa sociedade também carrega muito dessa lógica: a ideia de que existe uma única maneira correta de acreditar e viver e que quem escolhe outra deve ser punido. Eu apenas não consigo aceitar essa moral tão facilmente quanto o livro parece esperar.

Apesar dessas questões, Naema, a Bruxa continua sendo uma leitura de que gostei muito. A história é interessante, os acontecimentos prendem a atenção e a leitura flui muito bem. Mesmo discordando profundamente de algumas das conclusões morais da narrativa, gostei justamente de poder terminar o livro pensando sobre elas e formando uma interpretação completamente diferente daquela que ele parece propor.

No fim, talvez essa seja uma das coisas mais interessantes da literatura: o autor pode dizer quem é o bem e quem é o mal, mas não pode controlar completamente o que o leitor enxerga quando olha para as ações de cada um. E, no meu caso, quando olhei para o Mestre Leonardo e para deus, definitivamente não vi a mesma divisão que Rochester queria me mostrar.

⭐⭐⭐⭐

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