Latte & Read #31 | Abril 2026
A Paixão Segundo G.H. acompanha uma mulher que entra no quarto da empregada e, diante de algo banal, uma barata, acaba sendo levada para um mergulho interno. O que começa como uma ação comum vai se desfazendo rápido, e o livro vira outra coisa: uma experiência estranha, quase sem chão, em que linguagem, identidade e até a ideia de humanidade começam a se desmontar.
Tem algo meio vertiginoso no jeito que Clarice Lispector conduz isso. Não tem muita gentileza com o leitor. Não tem conforto. A narrativa vai cavando fundo num encontro bem cru com o que poderia ser o “núcleo” da existência, algo anterior a qualquer papel social, antes mesmo de a gente conseguir se organizar como “eu”. E não é um encontro bonito. Às vezes é seco, incômodo, até meio repulsivo.
Não é um livro de acontecimentos, é mais de sensação. Dá a impressão de que cada frase vai tateando no escuro, tentando dar nome a algo que não cabe direito em nenhuma palavra. E talvez seja aí que ele pega: o texto não explica tanto, ele te puxa. Você não fica só observando, em algum momento, já está lá dentro.
É curto, mas pesado. Difícil em vários momentos, mas também meio hipnótico. Bonito de um jeito estranho, que incomoda. Se fosse colocar numa imagem: é como ficar olhando o próprio reflexo até ele começar a parecer outra coisa e, mesmo assim, você não consegue parar.
Não é um livro que quer ser totalmente entendido. É mais para sentir, atravessar. E quando acaba, fica aquela sensação meio indefinida de que algo em você se mexeu, só que você não sabe explicar exatamente o quê.
⭐⭐⭐⭐

